terça-feira, 9 de abril de 2013

Belo texto, sábias palavras!


Crianças, desculpem-nos...


À pequena Fernanda Ellen

Somos irremediavelmente românticos. Ingênuos.  No fundo, sabemos a que ponto pode chegar a maldade humana. Mas continuamos a nos chocar diante dela, renovando sempre uma esperança vã na bondade do homem.
É como se, a cada ato de atrocidade, reiniciássemos o programa de nossa memória, voltando como se nada de mal pudesse acontecer. Desculpem-nos, crianças. Já disse. Somos ingênuos.
 Continuamos a fingir que o mundo é encantado, habitado tão somente por pessoas boas. É uma forma de fugir do medo, de não conviver com ele, como quem não olha embaixo da cama no meio da noite acreditando que lá nada tem.
Mentimos pra vocês mentindo para nós mesmos.
Mentimos dizendo que não há monstros nem bichos papões. Que vocês imaginem um mundo de fantasias, onde tudo dá certo e nada nos machuca. Se pudéssemos, construiríamos castelos, tal qual o do Príncipe Sidarta, e não deixaríamos que vocês vissem a fome, a dor ou a morte.
Desculpem-nos.
Só queríamos livrá-los da consciência da existência do mal em razão de nossa impotência de protegê-los do próprio mal. Temos vontade de dizer mais do que “não converse com estranhos”. Queríamos dizer “não conversem com ninguém, seja estranho ou vizinho, amigo ou parente”. Mas somos ingênuos. Continuamos acreditando.
Desculpem-nos. Há assassinos, pedófilos, sádicos, loucos, drogados e toda legião de monstros ao nosso redor. E, ingenuamente, continuamos a achar que vocês podem crescer livremente, rodeadas apenas por pessoas boas.
Continuamos acreditando que vocês podem ir à escola sozinhas pegar o boletim e voltar pra casa sem que nada de mal lhes aconteça. Que ninguém terá coragem de fazer um mal a quem nem o mal, de fato, sabe o que é.
Que ninguém, principalmente sendo do nosso convívio, pudesse fazer o mal a quem ainda vive num mundo onde é proibido ser ruim.
Criamos muitas leis, mas não a aplicamos com o rigor necessário. Porque continuamos acreditando. Criamos até os tais Direitos Humanos, sem deixar claro que tais direitos não deveriam valer para monstros. Porque continuamos acreditando.
Deveríamos parar de acreditar. Deveríamos aprender com vocês a ter medo.
Quem sabe se acreditando menos na bondade humana estaríamos mais preparados para castigar os monstros ao ponto deles terem medo de freqüentar nossa casa...

    Luís Tôrres

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